Em entrevista ao estúdio do Jornal Razão, a vereadora de Florianópolis e pré-candidata a deputada estadual Pri Fernandes afirmou que Santa Catarina somaria cerca de 29 feminicídios no ano e criticou a atuação do poder público. Ela também tratou de proteção animal, censura judicial ao jornal e do primeiro hospital veterinário público da capital.

Uma cadela yorkie anã de perninhas curtas dividia a mesa com a convidada no estúdio do Jornal Razão. Enquanto acariciava a Poca, resgatada por ela há cerca de dois anos, a vereadora de Florianópolis Pri Fernandes soltou a frase que resumiu a entrevista: “E o Estado, sim, falha com as mulheres. Falha.”

Psicóloga, protetora de animais e vereadora da causa animal na capital, hoje no segundo mandato, Pri agora é pré-candidata a deputada estadual. Na conversa, que atravessou proteção animal, violência doméstica e o funcionamento da Assembleia Legislativa de Santa Catarina, ela afirmou que o estado já somaria cerca de 29 casos de feminicídio no ano e cobrou o poder público.

Para a vereadora, os números falam por si. Segundo ela, Santa Catarina teria chegado a cerca de 29 situações de feminicídio até agora, sem contar as medidas protetivas em vigor. Questionada se pessoas usariam leis como a Maria da Penha em benefício próprio, respondeu que desconhece casos assim e voltou a apontar os dados como prova. Ela disse ainda ter denunciado 150 municípios catarinenses que, na versão dela, não teriam nenhuma lei voltada à proteção dos animais.

Assista à entrevista completa

A convidada mais improvável do estúdio foi a própria Poca, a yorkie que Pri resgatou em estado deplorável. Segundo a protetora, o animal chegou com corte na cabeça e na perna, cheio de carrapatos, com o pelo enodoado, dentes apodrecidos, otite severa e problemas de pele. Hoje, a cadela convive com dermatite atópica que exige dois banhos por semana e infecções de ouvido mensais. “É um custo muito alto pra quem quer um animalzinho”, disse, lembrando que as pessoas costumam procurar bichos de raça e saudáveis. O apelido nasceu das pernas curtas: “pouca perna, pouca pata, ela é de tudo um pouco”

Protetora que se define como alguém com vinte e nove anos de estrada, Pri afirmou ter tido 75% mais votos na reeleição em relação ao primeiro mandato. Confrontada com a crítica de que defensores de animais estariam esquecendo as crianças, contou rebater há anos com uma pergunta: “Qual é a instituição que você ajuda, que eu vou ajudar?” Segundo ela, quem faz esse tipo de cobrança costuma ficar em silêncio, porque, na leitura dela, “geralmente as pessoas que falam esse tipo de coisa não ajudam ninguém”. Para a vereadora, uma coisa não anula a outra.

Além dos animais, a bandeira mais forte de Pri é a das mulheres vítimas de violência. Psicóloga formada, ela relatou que o gabinete fez um trabalho de escuta e encaminhamento dessas mulheres para cursos profissionalizantes, atendimento psicológico e formação, chegando a formar dez vítimas em uma única turma de manicures. O entrevistador Lorran ponderou que dar uma profissão a uma vítima não é apenas ensiná-la a cortar unha, mas oferecer uma forma de romper o ciclo de submissão. Pri concordou e rebateu a fala, que diz já ter ouvido, de que a vítima teria se acomodado: “Nenhuma mulher gosta de viver no meio de uma violência, seja psicológica, patrimonial, física ou verbal. Ninguém gosta de ser humilhado.”

Baseada na experiência clínica, a vereadora sustentou que muitos crimes nascem da ideia da mulher como propriedade de um homem que não aceita a separação. Para ela, é daí que surgem os casos em que o agressor mata a companheira e depois se mata. “Ninguém nasce mal. Você é fruto do teu meio ambiente”, afirmou, defendendo que quem cresce vendo o pai agredir e humilhar a mãe entende aquilo como uma forma de amar e repete o padrão até que alguém quebre o ciclo. Foi nesse ponto que ela defendeu os grupos reflexivos com agressores, não para quem já tentou feminicídio, ressalvou, mas como espaço capaz de evitar que a situação evolua para algo pior.

Perguntada se o ciclo vale também para os animais, Pri respondeu que sim e recorreu à própria trajetória. Ela relatou ter trabalhado, cerca de 15 a 20 anos atrás, no programa Sentinela, ligado à antiga Cidade da Criança, na Agronômica. Sua função era revisitar, dez anos depois, famílias com boletins de ocorrência arquivados sem atendimento, e encontrava a criança já adolescente repetindo a mesma história, com um animal preso a uma corrente no fundo da casa. “O agressor adoece, a vítima adoece e quem é vítima da vítima também adoece”, resumiu. O caso mais duro que diz ter atendido foi num morro atrás da Trindade, por volta de 2010, quando encontrou uma menina de doze anos segurando um bebê que ela mesma havia parido, num cenário de completo abandono.

A conversa também expôs episódios em que o Jornal Razão diz ter sofrido censura judicial. Lorran relatou o caso de uma família de outra cidade catarinense, com crianças de pais usuários de drogas, cuja reportagem foi publicada de forma anonimizada e, ainda assim, teria sido excluída sob pena de multa que chegaria a duzentos mil reais. Sobre maus-tratos a animais, o jornal foi obrigado a apagar os vídeos do caso dos cavalos chicoteados em Nova Trento no ano anterior, mesmo com centenas de páginas tendo publicado o mesmo conteúdo. Indignada, Pri se ofereceu para assumir a divulgação: “Pode passar pra mim, porque ninguém vai fazer eu apagar um vídeo em relação a isso.”

Radical apenas nos animais, como faz questão de dizer, Pri afirmou que a farra do boi já estaria 95% reduzida e enfrenta o argumento de que gente de fora quer acabar com a cultura com uma frase direta: “Torturar animal, pra mim, não é cultura.” Uma bandeira que promete polêmica, admitiu, é a do passarinho na gaiola, tema sensível em Tijucas, onde a tradição é forte. A vereadora fechou o assunto com um paralelo entre o pássaro preso e a mulher que sofre violência: “Eu não tenho que manter quem eu amo confinado.”

Entre as conquistas do mandato, Pri destacou o primeiro hospital público veterinário gratuito de Florianópolis, além do banco de ração que reparte doações entre as protetoras. O atendimento, segundo ela, é vitalício e aberto a pessoas de baixa renda, a protetoras e a quem adota um animal, independentemente da cidade onde a pessoa mora, cobrindo raio-X, ultrassom, exames de sangue e internação. Ela creditou a viabilização à sensibilidade do prefeito de Florianópolis, Topázio Neto, e afirmou querer levar esse modelo à Assembleia e ampliá-lo para outras cidades.

Como pré-candidata, Pri avaliou a atuação feminina na Alesc. Das 40 cadeiras, seriam apenas três mulheres titulares, número que o entrevistador corrigiu para possivelmente quatro após a licença de um deputado e a posse de uma suplente. Ela destacou como ganho recente a aprovação, neste ano, da lei que institui grupos reflexivos com agressores de mulheres, proposta que, segundo ela, se arrastava havia cinco anos sem votação.

Nas considerações finais, a vereadora cobrou a sociedade a exigir do poder público e a apoiar as protetoras. “Você tem que fazer parte da solução e não do problema”, disse. Questionada se seria parte da solução para Santa Catarina, não hesitou: “Total. E se eu não for, não precisa me reeleger depois.”